Tuesday, May 29, 2012

Invasao da musica italiana no Brasil - 1963-1964

1963

'Legata a un granello di sabbia' ou 'Presa a um grãozinho de areia', gravada por Nico Fidenco em 1961 fez grande sucesso na Europa. Isso fez com que a RCA Victor lançasse a música e um LP inteiro do cantor em final de 1962. Em Janeiro de 1963, o Nico Fidenco (BBL-124) já está entre os mais vendidos em São Paulo.

Em 27 fevereiro 1963 estreia em São Paulo, nos Cines Astor e Paisandú, "Candelabro Italiano" (Rome Adventure) filme norte-americano rodado em Roma em 1961, com Troy DonahueSuzanne Pleshette, Angie Dickson e Rossano Brazzi. Um melodrama que não passava de uma desculpa para o diretor mostrar os melhores pontos turísticos de Roma. A certa altura, Troy & Suzanne vão a um night-club onde Emilio Pericoli canta "Al di là", canção vencedora do Festival di San Remo daquele ano, defendida por Luciano Tajoli e Betty Curtis, separadamente.

'Candelabro Italiano' encanta as multidões que acorrem aos cinemas para ve-lo. A Warner Brothers Records lança, através da Odeon, o LP da trilha-sonora e um compacto 'Al di là' com Emilio Pericoli,  que vai p'ro 1o. posto em poucas semanas. Pode-se dizer que a Invasão Italiana havia começado. O que aconteceu posteriormente foi resultado desses 2 mega-sucessos que abriram a cabeça dos brasileiros para uma sonoridade nova vinda da Italia. 
LPs mais vendidos em S.Paulo em Janeiro de 1963 (Diario da Noite) traz Nico Fidenco em 2o. lugar. 
'Candelabro italiano', rodado em 1961, lançado nos USA em 5 março 1962, foi visto pelos brasileiros 1 ano mais tarde, o que era praxe naquele tempo. tudo meio defasado . A canção que ganhou o Festival di San Remo em fevereiro 1961 só fez sucesso nos USA em agosto 1962, devido ao sucesso do filme por lá... que só foi lançado por aqui em fevereiro 1963, abrindo as comportas para uma enxurrada de sucessos provenientes da Península. 

Compacto-simples da trilha-sonora de 'O Candelabro Italiano', lançado pela Odeon/WB, com Emilio Pericoli cantando 'Al di là' foi direto para o primeiro lugar, abrindo assim um 'flanco' para o sucesso de outros discos gravados na Península.


'Legata a un granello di sabbia' que traduzia-se como 'Prêsa a um grãozinho de areia' foi sensação na Europa em 1961, chegando ao Brasil em 1962, sendo, junto de 'Al di là' o início do que se chamaria de 'Invasão da Musica Italiana'. Note que fotos de Nico Fidenco raramente apareciam nas capas de seus discos, pois ele já estava se tornando precocemente calvo e seu público era formado predominantemente de jovens.
Julho 1963 - compacto-duplo Rita Pavone com 4 sucessos faz sensação entre a juventude brasileira. 'La partita di pallone', um rock bem a gosto dos 'teens'; 'Come te non c'è nessuno' uma balada feita no céu para aqueles que gostavam de dançar coladinhos; 'Alla mia età' outra balada sonhadora, e o rock 'Clementine Chérie' para completar o binômio rock & balada.
compacto-duplo de Rita Pavone lançado pela RCA Victor em julho de 1963, veio só confirmar que a moderna musica italiana tinha vindo para ficar uns bons anos. 
5 Agosto 1963 - Diário da Noite - Henrique Gataldello da RCA Victor recebe diploma conferido à Nico Fidenco como o melhor LP de musica italiana lançado em 1963; maestro Exposito lança LP (BBL-1256) de sucessos já contendo 'Al di là'. 
band-leader argentino Exposito lança LP pela RCA Victor em Julho 1963 já contendo 'Al di là'; Iris Bruzzi é a garota da capa.
9 Agosto 1963 (Diario da Noite) - RCA lança 'Canta Nico Fidenco', o 2o. LP de Nico contendo o sucesso 'Tutta la gente

16 Setembro 1963 estreia Nico Fidenco no palco do Teatro Record de S.Paulo, tendo Norma Herrera, cantora mexicana como abertura. 

Antes de 1963 terminar, a RCA Victor já tinha lançado os LPs de:

Sergio Endrigo (BBL-142);
Rita Pavone (BBL-147), além de um
Nico Fidenco canta  (BBL-149) 2o. LP de Nico, contendo 'Tutta la gente'as coletâneas:
'Italia moderna' (BBL-133) 
'Alta Pressione' (BBL-150).  

Nunca se tinha visto e ouvido tantos discos italianos assim no Brasil.

1964

Peppino Di Capri, que já vendia discos para um seleto público apreciador do twist desde 1962, explodiu com 'Roberta', lindíssima balada que conquistou a todos os brasileiros. Di Capri já tinha se apresentado no Teatro Record durante a onda do twist, mas agora ele estava identificado com a moderna musica italiana e fazia parte do 'exercito' que conquistava nossa terra. 
Ninguem mais segurava a enxurrada de músicas italianas tocadas nas radios. A RCA Victor lançou 'Gioventù', mais um LP de coletâneas de sucessos assim que o Carnaval passou. A coletânea foi p'ro 1o. lugar absoluto tendo 'Se mi vuoi lasciare' com Michele como carro-chefe, mas 'Annamaria' [Sergio Endrigo] e 'O mio Signore' [Edoardo Vianello] também tocaram muito nas radios do país.

A Odeon também lançou suas coletâneas italianas. Até a nacionalissima Chantecler, sendo representante da italiana Ricordi, aqui lançava tudo que podia, desde Bobby Solo com  'Una lacrima sul viso' , Ornella Vanoni com a lindíssima 'Siamo pagliacci'  [vide letra no final da página] até LPs de coletâneas como 'Parata d' Estate'

Nico Fidenco e seu segundo grande sucesso no Brasil, 'Tutta la gente'.

Nico Fidenco foi o primeiro astro italiano a vir se apresentar entre nós. Logo em seguida, em março de 1964, três semanas antes do funesto Golpe Militar, veio o incrível Sergio Endrigo se apresentar no Teatro Record em São Paulo.

Leia mais sobre as tournees de Nico Fidenco e outros cantores italianos em:

http://cartazes-internacionais-no-brasil.blogspot.com.br/

'Sapore di sale' com Gino Paoli, uma das músicas mais bonitas vinda da Península, subiu na parada e tornou-se eterna.
'Io che amo solo te', com Sergio Endrigo foi para o 1o. lugar absoluto em março de 1964, sendo derrubado da 1a. posição por 'Datemi un martello' em junho.  Note que a RCA utilizou a capa de 'Se le cose stanno così', que versa justamente sobre o outono e suas folhas caídas, e colou o título 'Io che amo solo te' à esquerda. Um macête que fêz do compacto brasileiro um disco de sucessos de dois lados.
'Se mi vuoi lasciare' com Michele foi sucesso total nas radios de São Paulo e o compacto vendeu bastante. Além de vender como 'single', ambos lados faziam parte da coletânea 'Gioventù', o LP mais vendido no país durante várias semanas.
Bobby Solo com a linda balada 'Una lacrima sul viso' punha a Chantecler na parada brasileira novamente.

Mas a grande sensação do ano foram as apresentações na TV Record de Rita Pavone em junho de 1964, quando conquistou o Brasil de norte a sul com sua verve e carisma. "Datemi un martello" foi o disco mais vendido do ano, com 'Io che amo solo te' com Sergio Endrigo vindo em 2o. lugar. A música Italiana reinava suprema junto com o cinema de lá também. 

1965

Esse sucesso quase que absoluto se consolidou em 1965 com a volta de Rita Pavone em apresentações pessoais no Teatro Record de São Paulo e inúmeros lançamentos discograficos. "Io che non vivo senza te", do Pino Donaggio, era uma "praga" no programa de calouros do Chacrinha, com quase metade dos calouros querendo interpretar essa canção de Donaggio. Bobby Solo bisou com 'Se piangi se ridi' e John Foster começou o ano com 'Amore scusami' em 1o. lugar.

'Lascia stà' [Deixa isso p'ra lá] e 'Sono andato via' [Fui andar por aí] com Ruperto Da Vinci aka  Hélio Ribeiro. 

A musica italiana fazia tanto sucesso, que Helio Ribeiro, um disc-jockey inovador de São Paulo, verteu para o italiano o samba 'Deixa isso p'ra lá', grande sucesso de Jair Rodrigues, que passou a se chamar 'Lascia stà'. No lado B do compacto que ele próprio gravou para a RGE verteu p'ro italiano o samba  'Diz que fui por aí', que Neyde Fraga e outros fizeram popular.

1966

Em 1966, nós, que mal sabíamos uma palavra do idioma de Dante dois anos antes, já articulávamos frases e até escrevíamos cartas para correspondentes [pen-pals] jovens que viviam na "matriz". As revistas jovens italianas Big e Giovani, traziam as ultimas da moda, musica, filmes e esportes. As revistas semanais como Oggi, Epoca, Gente, L’Europeo chegavam até nós com 2 ou 3 meses de atraso, mas isso pouco importava, pois nosso desejo de ler a imprensa italiana era "como estar lá" e nós "viajávamos na mayonese".

1966 também foi também o ano que os fã-clubes, principalmente os clubes de fãs da Rita Pavone 'estouraram' e começaram a pipocar por todas as partes do país. Bastava você enviar cartas com nome e endereço do FC para revistas como Manchete, Fatos & Fotos, Revista do Rock, Melodias, Intervalo etc. e choviam cartas, literalmente, de ávidos jovens de todo o Brasil querendo participar da euforia que era ser fã de uma cantora estrangeira que tinha 'algo' de libertário. Foi o ano que eu conheci Totó Faria, do Fã-Clube Rita Pavone, Fabio Miranda, do Rita Pavone Fã-Clube, Lêda Gonçalves, do RPFC de Sorocaba e Silvia Paula Jentsch, da Vila Clementino, que por si própria já era um fã-clube.


Siamo pagliacci

Ho pianto, ho pianto tanto, lo so'
e' vero, io ti ho cercato, lo so'
ma ora che sei tornata pero'
mi spiace, ti devo dire di no!

Siamo pagliaci senza cuore perche'
vogliamo chi non abbiamo.
Siamo pagliacci un po' cattivi perche'
vogliamo solo chi non c'e', chi non c'e'.

Vorrei tu non piangessi per me
ma poi non apro bocca perche'
io so' cosa vuol dire per te
io so', io l'ho provato.


musica di Mogol & Lunero
canta: Ornella Vanoni.


Revista do Rádio de 20 Junho 1964;  Anselmo Domingos, editor da RR, explica como a Musica Italiana moderna tomou de assalto o Brasil. Muito boa análise, principalmente depois de passados tantas décadas. Anselmo acertou em vários pontos, mas, infelizmente errou quando apostou que a musica norte-americana teria 'acabado'. Ela voltou, com mais ímpeto ainda a partir de 1968, ajudada pela Ditadura Militar que se alinhou à política dos EEUU em todo e qualquer ramo de atividade, seja militar ou artística.

Italianas - A época é decididamente das músicas italianas. Que tomaram conta do mercado e, consequentemente, tem o melhor quinhão na programação das nossas emissoras. E a que se deve essa influência avassaladora? Certamente a própria tonalidade das músicas italianas, que são alegres, românticas, engraçadas, tristes, mas, antes de tudo, agradáveis. Feitas com espírito e bom gosto. E para sua difusão tem colaborado os festivais de músicas que anualmente são realizados na Itália, além do próprio cinema peninsular, que hoje é um dos mais sérios rivais do cinema norte-americano no Brasil. Tudo isso ajuda a Itália a difundir sua música no exterior e criar ídolos.

Porque a verdade é que em pouco tempo a Itália fabricou uma porção de ídolos que ameaçam a posição de muito figurão solidamente instalado na preferência dos fãs. Aí estão Rita PavonePeppino di CapriEmilio PericoliSergio EndrigoNico FidencoDomenico Modugno e tantos outros, uns com mais prestígio, outros aflorando decididamente para o sucesso consagrador. A grande vitóra da musica italiana está no fato de ter conquistado a preferência do grande público sem que para isso tenha sido feito um trabalho de monta, uma campanha de envergadura para o lançamento de produções, como sabem fazer os norte-americanos.

Enquanto as músicas italianas vão em escala ascendente, nota-se que o prestígio da música norte-americana junto à massa já não é o mesmo de antigamente. Cartazes como Paul Anka e Elvis Presley habituados a estarem na crista do sucesso já não alcançam o êxito de antes. E Ricky Nelson, cantor que despontou como fadado a ter bela carreira desapareceu como por encanto, enquanto não se ouve falar mais de Pat Boone, efetivamente um bom cantor. Por outro lado, no Brasil, o público de Frank Sinatra se reduz, com o passar do tempo, a um grupo de puristas. A hora, devemos reconhecer, é da música italiana. E o será por muito tempo enquanto os outros gêneros musicais continuarem a perder terreno. Anselmo Domingos. 

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