Monday, May 28, 2012

Verão e Inverno (Summer & Winter)

sucessos do verão de 1963 

Contrariamente do que se observa nos Trópicos, os países temperados do Hemisfério Norte, em nosso caso vamos nos ater à Itália, tem toda suas vidas norteadas pelas diferentes estações climáticas.  Verão e  inverno são celebrados diferentemente. 

Para nós, que vivemos gloriosamente nos Trópicos, as palavras Primavera, Verão, Outono e Inverno não tem a mesma conotação que nos países temperados. Nós, mal prestamos atenção nas mudanças das estações, ao passo que lá tudo se torna uma questão de vida ou morte. As pessoas programam suas vidas em torno desses quatro conceitos. 

O calendário escolar é pautado pelas estações. O ano letivo começa em setembro (outono), e termina no final da primavera do ano seguinte (maio-junho) e as férias acontecem durante o glorioso verão (julho, agosto e parte de setembro). Em conversas cotidianas é comum se ouvir pessoas dizendo:  “No verão de 1962 eu fiz isso ou aquilo.”  

Por que o mês de maio é o 'mês das noivas'? Porque as pessoas, como os animais, gostam de se acasalar na primavera.

O auge do Verão na Península é o dia 15 de agosto, um feriado nacional chamado Ferragosto.  O Gianni Morandi tem uma musica (muito bonita, por sinal) chamada “Notte di Ferragosto”. Por outro lado, o auge cultural do Inverno acontece durante os festejos natalinos.



sucessos do verão de 1964

Nos tempos antigos o Inverno era época de “hibernação”; as pessoas, praticamente, 'fingiam' que viviam; sabiam que tinham que sobreviver de alguma maneira, pois dias melhores viriam; eram grandes os sofrimentos, pois familias que não tinham tido uma boa safra, talvez não agüentassem até a primavera. Muitas ficavam debilitadas, sendo que as mais velhas e fracas simplesmente morriam. Depois da Revolução Industrial e consequente instalação de eletricidade, aquecedores em casa, e o aparecimento do radio e TV, o Inverno se tornou a estação mais cultural pois as pessoas ficam em casa lendo livros, revistas, jornais ou escutando programas de radio e assistindo TV. É a época que as emissoras de radio e TV mais ganham dinheiro pois tem uma audiência certa; ninguém sai de casa para se congelar na neve lá fóra. Para a industria do entretenimento esse é o grande momento; por isso a programação de TVs começam todas em meados de setembro  e 'esquentam' em novembro, dezembro e janeiro. 

MUSICA E TELEVISÃO 

Os grandes shows de TV Italianos como “Studio Uno”, “Alta Pressione” (1962), Partitissima”, “Canzonissima”, “Festival di San Remo”, “Il giornalino di Giamburrasca” (1964-1965), “Stasera Rita” (1965) etc. foram todos  transmitidos no outono/inverno - de outubro a março. Até Rita Pavone surgiu no dia 2 setembro 1962, quando ganhou o “Festival dos Desconhecidos”. Ainda em setembro gravou “La partita di pallone" e no final de novembro já estava em 1º lugar;  antes do Natal de 1962 ela já era conhecida no país inteiro, tendo participado de “Alta Pressione”, programa dedicado à juventude em horario nobre, que seria um “aperitivo”, pois o “prato principal” era “Studio Uno”, o grande musical da TV Italiana, que todo ano tem uma apresentadora diferente, sendo essa estrela, geralmente, uma cantora que esteja em voga no momento. No inverno 1962/1963 era o grande momento de Mina, que devido a uma gravidêz inesperada teve que abandonar a idéia na ultima hora, e a RAI, meio sem alternativa, apostou na novata Rita Pavone para substituí-la. Hallelluya! Alem de estar dominando as ondas do ar, Rita lançou  uma pérola musical chamada  “Come te non c’è nessuno”, que foi p’ro 1º lugar instantâneamente e logo em seguida “Alla mia età”, um lamento juvenil que tb. chegou ao píncaro da parada. De simples desconhecida no outono de 1962, Rita “dominou” o inverno e quando a primavera de 1963 chegou “Cuore” estava no topo da parada e Rita se torna “unanimidade nacional”.

SUCESSOS DE VERÃO

Para entendermos a proliferação de “musicas-de-verão”, também chamadas “musicas-de-balneário”, temos que ver um pouco da história da Itália pós-Guerra.  Derrotado o Fascismo de Mussolini em 1945, os Estados Unidos injetou milhões de dólares na Península [através do chamado Plano Marshall],  pois morriam de mêdo que os comunistas Iialianos, que haviam lutado contra Mussolini e seus capangas, vencessem as eleições.  

Com a injeção dos dolares norte-americanos o parque industrial italiano - Fiat, Olivetti, Lambretta etc. - foi revigorado com essa  infusão  maciça de capital e já no final da década de 50 havia um proletariado imenso com bom poder aquisitivo. As fabricas construíam colônias-de-férias à beira mar para seus operários e durante o alto verão [agosto] as firmas davam ferias-coletivas a seus empregados e cidades Italianas inteiras se esvaziavam [vide canção “Città vuota” da Mina].  Todo mundo ia passar suas férias nas colônias.  E junto levavam suas eletrolas, victrolas portáteis chamadas de “mangia-dishi” [come disco].  


o famoso 'mangia-dischi' (come-disco)

o 'come-disco' por dentro... antes do aparecimento do grav. cassette.

CANTAGIRO

Durante esse período as fábricas de discos começaram a lançar musicas falando de praia, namoros que duravam somente o tempo das férias, insolação, por de sol, bailes à beira mar, etc.  E aí se formou essa verdadeira industria que são os sucessos de Verão [canzone estiva]. A Itália inteira se transformava numa “colonia de férias”.  Surgiram concursos de musica de Verão (“Un disco per l’Estate” – Um disco para o Verão) e em 1962, imitando o giro de bicicletas da França (Tour de France), surgiu um “giro musical” de Verão chamado “Cantagiro” (giro de cantores), onde uma caravana de cantores divididos em Girone A (profissionais) e Girone B (cantores iniciantes) e a partir de 1966, Girone C, só para conjuntos musicais, faziam uma peregrinação por 30 cidades Italianas de Norte a Sul. Durante essas apresentações os cantores eram votados pela população e o mais popular ganhava o certame na apresentação final. O “Cantagiro” foi um sucesso instantâneo e ficou tão grande, que em 1965 - ano que Rita Pavone venceu com “Lui” - teve apresentações também em Moscou, Viena e Frankfurt.

Para os cantores, o Verão era uma mina de ouro, pois tinham emprego garantido.  Os dias de Verão são enormes em países temperados;  em certas regiões mais à Norte, a noite só acontece depois das 21 ou 22 horas, sendo que o dia é aproveitado ao máximo. E a rapaziada sabia que a noite havia sempre um show de algum artista jovem.  Por isso que essa época é importante para os cantores, gravadoras, etc. Para exemplificar uma típica “canzone estiva” (musica de Verão) vejamos “Son finite le vacanze” gravada por Rita em 1963 para seu 2º álbum “Non è facile avere 18 anni”.


SON  FINITE   LE   VACANZE                      AS FÉRIAS TERMINARAM 
 
Son finite le vacanze                                      As férias terminaram
Per fortuna, son finite, davvero                         sorte, elas terminaram mesmo
Ma noiavo da morire                                       eu já não aguentava mais
Finalmente son tornata da te                           finalmente voltei para você

Col sole un pò sbiadito ci rivedremo ancora      Com o sol mais fraco nos veremos novamente
E col mia primavera mi dirà:                            e com minha primavera me dirá:
“Uscia-usciamo questa sera”                           'vamos sair hoje a noite”
ma questa volta, amore, io ti dirò di sì              mas desta vez, meu bem, eu vou dizer “sim”
e sai perchè, non posso fare ammeno di te       e v. sabe que eu não posso lhe desprezar

Son finite le vacanze ...                               As férias terminaram ...

Passavo tutto il giorno colla mia comitiva         Eu passava o dia inteiro com o meu grupo
E quando cominciava ad imbrunir                    e quando começava a entardecer
Resta- restavo sempre sola                             ficava sempre sosinha
Con tutti i miei pensieri io mi chiudevo in me    com meus pensamentos, me fechava em mim
Perchè così imaginavo di trovarmi con te          porque assim eu imaginava estar com você.

Musica de Pelleschi 
letra de Carlo Alberto Rossi


Então ai está configurada a situação terrível da mocinha que foi obrigada a ir com a familia (irmãos e pais) a uma colônia de férias durante o verão, deixando o namoradinho em Turim, Milão, Florença ou Roma. Coitada! Ficava o dia inteiro “bodeada”, esperando a noite chegar para ficar pensando no amado que ficara na cidade, ou quem sabe, fora também para alguma outra colonia junto com os pais dele. Eu acho esse texto uma pérola de “cultura popular”. Carlo Alberto Rossi era um “paroliere” muito inspirado. Ah, quando ela diz, na 2ª linha:  “col sole un pò sbiadito ci rivedremo ancora”... isso quer dizer que na volta dela para sua cidade, o sol já vai estar “fraco”... isso é, lá por Setembro o sol já começa a “abandonar” o Hemisfério Norte para “voltar” para o Hemisfério Sul.

A partir de 1945, com a injeção maciça de capital do Plano Marshall (enquanto a Guerra Fria comia solta), a Itália ia de vento em pôpa. Já nos anos 1950s, os norte-americanos descobriram que fazer filmes nos estúdios da Cinecittà - imensos estúdios cinematográficos construídos nos tempos do Fascismo de Mussolini - saía mais barato que fazê-los em Hollywood e de-repente Roma tornou-se uma Hollywood-no-Mediterrâneo, com super produções tipo “Ben-Hur” (Oscar de 1959) sendo feitas por lá. “Cleopatra” (1963), o filme mais caro do mundo (quase levou a XX Century Fox à falência) também foi rodado na Cidade Eterna. Roma fervilhava com o romance de Liz Taylor & Richard Burton. O próprio cinema italiano se consolidou e nos anos 1960s fazia sucesso no mundo inteiro com diretores de peso como Fellini (“La dolce vita”), Vittorio de Sica, Rossellini, Visconti etc.

E as crianças nascidas no pós-guerra tornavam-se jovens, que compravam cada vez mais discos.  O mercado fonográfico Italiano era um dos maiores do mundo, depois dos EEUU e Japão. Em 1964 “Una lacrima sul viso” com Bobby Solo vendeu a cifra de 1 milhão, nunca antes atingida, embora a própria Rita Pavone vendesse uma base de  800,000 discos de cada sucesso seu – numeros astronômicos para a época. A Itália vivia seu apogeu na decada de ’60.  Alemanha, França, Benelux e Itália abriam suas fronteiras aduaneiras e o Mercado Comum Europeu [que futuramente seria um gigante] começava a existir.  Vamos a uma lista de sucessos de Verão:

1. Città vuota  (Cidade vazia)  -  Mina – fenômeno de esvaziamento das cidades no Verão
2. Viene al mare (Venha ao mar) – La Cricca convidam todos a irem ao mar.
3. Abbronzattissima  - Edoardo Vianello comenta sobre os excessos do bronzeamento.
4. Con te sulla spiaggia  (Na praia contigo) – Nico Fidenco faz beicinho e diz que esse ano não irá à praia com  a namorada, pois ela não o tratou bem no ano anterior.
5. La cabina -  Gianni Meccia observa uma moça saindo da cabina para deitar-se ao sol.
6. Sapore di sale (Sabor de sal) – Gino Paoli compôs o maior clássico de verão...
7. Sulla sabbia (Sobre a areia) – Pino Donaggio – super inspirado esse cantor maestro.
8. Legata a un granello de sabbia (Presa a um grãozinho de areia) – Nico Fidenco – fantasia do Nico de prender seu objeto amoroso em um “grãozinho de areia”. Um “soft” sado-masoquismo?
9. Bikini e tamouré – Tony Renis -  Biquine & uma dança dos Mares do Sul; hit de 1963.
10. Notte di Ferragosto  -  Gianni Morandi – musica dramática de Morandi, onde tudo está quente: a praia, o mar, ela e ele. Você sente o sufoco na orquestração e interpretação. 



ah ah Abbronzadissima... sotto i raggi del sole...


mesma garôta aparece em anúncio de bronzeador e na capa do 45 rpm 'Abbronzatissima'. 

Poderíamos continuar com essa lista “ad infinitum”, pois todo artista que se prezasse tinha um “sucesso de verão” e outro de “Iiverno”. Vejamos a letra de “La cabina” de Gianni Meccia, que saiu no LP “Benissimo” de 1965 e em compacto-simples aqui no Brasil e fez um relativo sucesso. 

    

Mais um sucesso “balneário” do Rossi. Meccia também era ás em sucessos de Verão. E assim a Classe Operária vivia seu paraíso la na própria Península. Sempre que penso na Itália daquele tempo, eu penso nas Fotonovelas que lia nas revista “Capricho”, “Ilusão” e “Grande Hotel”, que eram todas traduções de originais Italianos.  O dono da Editora Abril, o Civita, que era um Judeu vindo da Itália para fazer fortuna na America do Sul, simplesmente trazia as revistas Italianas, apagava o balãozinho escrito em Italiano e pagava um empregado para re-escreve-lo em Português, para deleite de milhões de jovencitas brasileiras do Oiapóque ao Chuí. Quem não passou horas lendo aqueles doces romances nos anos ’60? 



'Presa a um grão de areia' com Nico Fidenco.



'Con te sulla spiaggia' (Contigo na praia] era parte do programa 'Un disco per l'estate' (Um disco para o Verão) realizado anualmente pela radio da RAI.

Antes de passarmos ao assunto “Inverno”, vamos a mais uma lista de “successi estivi”:

1. Si fa sera – Gianni Morandi – a noite cai na praia quente e os amantes se esbaldam.
2. Caldo (Quente) – Ornella Vanoni
3. Tintarella di luna (Bronzeado de lua) – Mina – aqui ao invés do sol escaldante, a donzela quer ficar branquinha e troca o sol pela lua, fazendo companhia aos gatos nos telhados à noite.
4. Era d’estate (Era verão) – Sergio Endrigo faz reminiscências sobre o verão passado...
5. La dolce estate (O doce verão) – Sergio Endrigo; note que verão é de gênero feminino
6. L’esercito del surf (O exército do surf) – Catherine Spaak, cantora & atriz belga canta em italiano. Wanderléa gravou a versão em nosso país.
7. Stessa spiaggia, stesso mare (Mesma praia, mesmo mar) – Mina - Meire Pavão gravou versão na Chantecler.
8. Un bucco nella sabbia (Um furo na areia) – Mina
9. Sole magico di luglio (Sol magico de julho) – Gianni Meccia
10. Nel sole (No sol) – Al Bano grita à vontade em seu maior sucesso.

Mas a Itália também tinha seu lado invernal. Cortina D’Ampezzo, fica na região dos Alpes Italianos– as chamadas montanhas Dolomitas – foi palco das Olimpíadas de Inverno de 1956 – apenas 9 anos após a derrota da Itália na II Guerra.  Note que os norte-americanos não perdiam tempo em  “promover” a Itália (antiga inimiga e derrotada). Justamente essa região é de onde vieram meus avós maternos, mas quando de lá sairam, em 1888, era uma região pobre. De pobre nos anos 1880, ficou super-rica a partir dos anos 50. Cortina, como é chamada, é freqüentada pela classe domindante européia. O cineasta britânico Edward Blake filmou o clássico “The Pink Panther” (“A pantera cor-de-rosa”) lá no inverno de 1963 tendo Claudia Cardinalle como estrêla. 


Embora o inverno também tenha seu charme nos teleféricos [seggiovia], skiis [sci], e casas Alpinas, não é tão popular entre a Massa Operária, pois é, óbviamente, bem mais caro. Mas assim mesmo você encontra “sucessos de Inverno” no Hit Parade Italiano. Vejamos os mais famosos: 

1. Sul cucuzzolo della montagna (No topo da montanha) – Rita Pavone
2. Sempre più su  (Cada vez mais alto) -  Rita Pavone (do filme “Não brinque com o Mosquito”, que foi filmado inteiramente no Inverno – com neve para todo lado).
3. Bianco Natale (Natal Branco) – Rita Pavone – novamente neve por todo lado.
4. Se le cose stanno così (Se as coisas estão assim) – Sergio Endrigo, compositor que prefere as estações 'tristes'; bastante pessimista em seus relacionamentos amorosos – veja a frase: “l’ottobre era fatto più freddo, fra noi più niente da dire” – outubro estava mais frio que o normal e entre nós nada mais a dizer.
5. Aria di neve (Ar de neve) – Sergio Endrigo compara o amor ao frio, gelo e geada.
6. Le notti lunghe (As noites longas) – Adriano Celentano
7. Siamo due esquimesi (Somos dois esquimós) – Edoardo Vianello fazendo suas gracinhas tanto no verão como no inverno.
8. Passione (Paixão) – Rita Pavone – não seria uma tipica musica de Inverno, já que é Napolitana, mas há a parte que ela reza a Madonna da Neve, para que passe sua febre; “Nossa Senhora da Neve” contraposta à “febre que queima a suplicante”!  Uma figura poética bem interessante.

Poderíamos continuar a contar os sucessos, que embora em menor número que os “estivi”, assim mesmo existem à granel, mas vamos ficando por aqui, pois nosso objetivo era mostrar o contraponto entre verão e inverno na Península Itálica. 

L A    C A B I N A                                                 A   C A B I N A

Dietro la mia cabina vedo due gambe al sole     Atrás de minha cabina vejo 2 pernas ao sol
Sul corpo c’è un bikini, sul viso un giornale       sobre o corpo 1 biquini, sobre o rosto 1 jornal

Ti vengo più vicino perchè lo sai che t’amo        Chego mais perto de ti, pq. v. sabe que te amo
Tu tieni gli occhi chiusi e non t’accorgi di me     v. de olhos fechados não liga p'ra mim

E prendo un pugno di sabbia                             E pego um pouco de areia
E poi lo lascio cadere                                       e deixo cair
E sulle tue braccia così sentirai                         e sobre os seus braços assim você sentirá
Un bacio caldo com’è il mio amore per te           um beijo quente como é o meu amor por você

Dietro la mia cabina vedo due gambe al sole       Atrás de minha cabina vejo 2 pernas ao sol
Tu tiene gli occhi chiusi e non t’accorgi di me      v. de olhos fechados não liga p'ra mim.

Musica:  Gianni Meccia  

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